ARTIGO COMENTADO – TREINAMENTO MUSCULAR RESPIRATÓRIO APÓS CIRURGIA CARDIOTORÁCICA

14-04-2014

Recentemente, foi publicado no periódico BioMed Research International (anteriormente intitulado Journal of Biomedicine and Biotechnology), um ensaio clínico, controlado e randomizado sobre treinamento muscular respiratório após cirurgias cardiotorácicas (BioMed Research International, vol. 2013, Article ID 354276, 7 pages, 2013).

O objetivo dos autores foi avaliar a eficácia e viabilidade do treinamento muscular expiratório, utilizando um dispositivo chamado Respilif,t aplicado em pacientes no pós-operatório de cirurgia cardiotorácica.

 Para tanto, foram recrutados 60 pacientes submetidos à cirurgia cardiotorácica, sendo 30, incluídos no grupo intervenção e 30, no grupo controle, entre a primeira e terceira semana do programa de reabilitação pulmonar. O primeiro grupo recebeu treinamento muscular expiratório com carga resistiva de 30 cmH2O, por meio do dispositivo citado integrado a um incentivador respiratório à volume. O segundo grupo utilizou o mesmo instrumento, porém sem aplicação de carga. Cada treinamento foi realizado duas vezes ao dia, em sessões com 15 minutos de duração. Ambos os grupos foram submetidos ainda, ao mesmo programa de Fisioterapia Respiratória, que consistia na aplicação de técnicas manuais de expansão pulmonar durante 20 minutos, também, duas vezes ao dia. O protocolo de tratamento teve duração de 14 dias consecutivos.

Os valores de pressão expiratória máxima (Pemáx) foram considerados como desfecho primário. Como desfecho secundário, foram avaliadas a pressão inspiratória máxima (Pimáx), volumes e capacidades pulmonares (pletismografia), oxigenação (gasometria arterial), teste de caminhada de 6 minutos, escala de dispneia crônica e questionário de qualidade de vida SF-36, além de ter sido aplicada, uma escala visual analógica, para analisar a sensação de dispneia, dor torácica e bem-estar.

A avaliação foi realizada no primeiro e último dias do programa de reabilitação pulmonar. A força muscular respiratória e os volumes e capacidades pulmonares foram avaliados também, no oitavo dia de reabilitação.

Como resultados, os autores encontraram melhores valores de Pemáx no grupo intervenção, quando comparados ao grupo controle. De acordo com a avaliação da escala visual analógica para dispneia, dor torácica e bem-estar, houve evolução similar e progressiva durante o tempo de estudo em ambos os grupos; entretanto, foi observada melhora acentuada nos níveis de percepção da dispneia no 12º e 14º dias após o início da reabilitação, no grupo intervenção. Além disso, o treinamento muscular expiratório não piorou a dor torácica e nem alterou seu curso de recuperação.

Pacientes submetidos às cirurgias cardiotorácicas estão suscetíveis ao desenvolvimento de alterações do sistema respiratório, relacionadas, especialmente, à redução da expansibilidade pulmonar, complacência e oxigenação. Estas complicações estão, geralmente, associadas ao prolongamento do tempo de internação hospitalar pós-operatório. Portanto, faz-se necessária a busca por estratégias e condutas que possam beneficiar tais pacientes, evitando ou minimizando as alterações patofisiológicas inerentes às cirurgias cardiotorácicas, tal como a proposta por este estudo.

Os autores apresentam como limitações da pesquisa o fato de não terem avaliado o status da musculatura respiratória pré-operatória e por terem iniciado o programa de reabilitação pulmonar, quando os pacientes já se encontravam estabilizados. Para eles, os resultados deste estudo não devem ser extrapolados para uma fase clinica mais próxima da intervenção cirúrgica, nem se deve excluir, a possibilidade de recuperação funcional espontânea dos pacientes, mesmo que parcial, no período entre a cirurgia e o início da reabilitação.

Por fim, os autores mostraram que a utilização de um dispositivo respiratório, de fácil uso, para o treinamento muscular expiratório, pode apresentar efeitos adicionais benéficos, quando comparado a um treinamento simulado, em pacientes submetidos às cirurgias cardiotorácicas.

Crisafulli E, Venturelli E, Siscaro G, Florini F, Papetti A, Lugli D et al. Respiratory muscle training in patients recovering recent open cardiothoracic surgery: a randomized-controlled trial. BioMed Research International, vol. 2013, Article ID 354276, 7 pages, 2013.

 

Daniel Lago Borges

Fisioterapeuta

Especialista em Fisioterapia em Terapia Intensiva – ASSOBRAFIR

Mestre em Ciências da Saúde – UFMA

Coordenador de Fisioterapia da UTI Cardiológica do HUUFMA

Coordenador do Núcleo Maranhão da ASSOBRAFIR

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